O reporte corporativo está ficando mais amplo
Nas últimas semanas, a CVM avançou em orientações e ajustes que ajudam a ilustrar uma transformação importante no ambiente de reporte. As companhias precisam lidar com informações financeiras cada vez mais estruturadas e, ao mesmo tempo, incorporar ao processo decisório dados relacionados à sustentabilidade, riscos e outras dimensões que ultrapassam o fechamento contábil tradicional.
Em agosto, a CVM orientou o mercado sobre alterações nos formulários de Informações Trimestrais (ITR) e Demonstrações Financeiras Padronizadas (DFP), com novos campos obrigatórios. Também publicou orientações sobre a aplicação das regras de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade. O ponto comum é claro: o perímetro da informação relevante para investidores, conselhos e reguladores está aumentando.
Mais informação significa mais responsabilidade de governança
Para um conselho de administração, comitê de auditoria ou diretoria, receber mais indicadores não significa necessariamente possuir melhor informação. A governança depende de saber de onde o dado veio, quem o produziu, quais premissas foram utilizadas, quais controles foram aplicados e se existe uma trilha capaz de sustentar o número apresentado.
Isso vale para receita, margem e caixa, mas também para provisões, contingências, indicadores operacionais, riscos, informações de sustentabilidade e métricas utilizadas em decisões estratégicas. Quando diferentes áreas e sistemas alimentam o reporte corporativo, aumenta o risco de inconsistência, retrabalho ou decisões baseadas em informações que não foram suficientemente validadas.
Auditoria é mais do que uma obrigação anual
Nesse ambiente, a auditoria independente ganha relevância como uma das estruturas que sustentam a confiança na governança. Seu valor não está apenas na emissão de uma opinião sobre demonstrações financeiras. O processo de auditoria exige evidências, testa critérios, confronta informações e força a organização a demonstrar como chegou aos números apresentados.
Uma auditoria bem conduzida também cria um ponto de diálogo com a administração e com as instâncias de governança sobre estimativas relevantes, riscos de distorção, qualidade dos controles, fechamento contábil e consistência da informação. Isso ajuda a deslocar a auditoria da lógica de 'cumprir uma obrigação' para a lógica de fortalecer a infraestrutura de confiança da empresa.
Tecnologia torna o tema ainda mais importante
A própria profissão contábil está mudando rapidamente. Pesquisa divulgada pelo Conselho Federal de Contabilidade em 2026 mostra que a inteligência artificial já faz parte da rotina de grande parcela dos profissionais da contabilidade. Automação, integração de sistemas e IA podem aumentar produtividade, mas também tornam mais importante a governança sobre acessos, fontes de dados, modelos, alterações e responsabilidades.
Quanto mais automatizado o processo, mais a administração precisa saber quais controles permanecem humanos, quais decisões são apoiadas por sistemas e como uma informação relevante pode ser reconstruída e verificada. Eficiência sem rastreabilidade pode simplesmente acelerar um erro.
O conselho precisa fazer perguntas melhores
Uma boa governança não exige que conselheiros sejam auditores ou especialistas contábeis. Exige, porém, que façam perguntas capazes de testar a qualidade da informação: quais são as estimativas mais sensíveis? Onde estão as principais fragilidades de controle? Existem diferenças recorrentes nas
conciliações? Quais sistemas alimentam os indicadores estratégicos? O auditor encontrou temas que merecem atenção do conselho?
Outro ponto relevante é a independência. Quanto mais relevante a informação para remuneração, covenants, avaliação de desempenho, captação ou decisão de investimento, maior o valor de uma visão externa capaz de desafiar premissas e exigir evidências.
Governança se prova quando a informação é testada
Políticas, regimentos, comitês e matrizes de risco são elementos importantes de governança. Mas a maturidade aparece quando a organização consegue demonstrar que as informações usadas para decidir são consistentes, reconciliadas e sustentadas por controles.
A pergunta para administradores e conselhos é objetiva: se amanhã um terceiro independente precisar refazer o caminho de um indicador relevante, do relatório apresentado ao conselho até o sistema e a evidência de origem, a empresa consegue demonstrar esse caminho com segurança?
Se a resposta não for clara, talvez o desafio não esteja apenas na contabilidade. Pode estar na própria governança.
A Russell Bedford Brasil atua em auditoria independente e serviços relacionados à governança e controles. O objetivo é ampliar a confiança sobre a informação utilizada por acionistas, administradores, conselhos, investidores e demais stakeholders - sem substituir as responsabilidades próprias da administração.
FONTES E REFERÊNCIAS
CVM. Ofícios Circulares e orientações técnicas aos regulados, incluindo alterações recentes nos formulários ITR/DFP e orientações sobre informações financeiras relacionadas à sustentabilidade. Fonte oficial: CVM / gov.br.
Conselho Federal de Contabilidade (CFC). Relato Integrado 2025 e pesquisa CFC/IOB/Fenacon divulgada em 2026 sobre adoção de inteligência artificial por profissionais da contabilidade. Fonte oficial: cfc.org.br.